sexta-feira, 18 de julho de 2008

Capítulo I : No manicômio

Três homens entraram na sala cuja placa na porta lia-se "PSIQUIATRA - Dr. Manoel Vallverde", escrito em vermelho.
O homem do lado direito era grande e gordo, suava e mantinha suspenso pela mão direita um pequeno homem franzino. O homem gordo não suava pelo esforço. Suava por um pequeno problema nas glândulas sudoriparas. Usava branco dos pé a cabeça e matinha uma expressão séria enquanto pensava em como aquele emprego era chato.
O terceiro estava vestido assim como o primeiro. Mantinha suspenso pela mão esquerda aquele mesmo homenzinho e era bem maior que os dois. Enquanto passava pela porta, imaginava como aquele cara pesava tanto apesar de ser pequeno, e constatou que talvez devesse entrar numa acadêmia.
O homenzinho frânzino se sentia cansado demais para pensar.
Os dois homens colocaram o pacote humano no divã e esperaram as novas ordens do outro homenzinho franzino atrás da grande mesa de mármore. Bastou um aceno de mão e eles sumiram porta a fora.
O homenzinho levantou da poltrona exibindo o orgulho de ser o diretor e único psiquiatra do manicômio clandestino. Para ele aquilo era só um negócio. Cinicamente, dizia que o alto índice de óbitos não lhe agradava, "até sinto um aperto no coração pelas pobres almas", mas "Ou eles ou nós" e terminava ludibriando os funcionários. Todos que estavam trabalhando ali eram de alguma forma chantageados pelo psiquiatra. Apesar de murcho na aparência sua personalidade era forte. Um homem convícto.
Para toda a cidade aquilo ali era um asilo de velhos. Para os funcionários o asilo era na verdade um manicômio. Para Dr. Manoel Vallverde se tratava de um laboratório científico em pesquisa genética e aquele ser a sua frente era um mais um teste mal sucedido. A rotina no falso asilo era metódica. Todas as manhãs alguém levava alguém para alguém examinar. Se por acaso alguém notasse em alguém algum indício de mudança fisiológica por mínima que fosse, esse alguém instruía dois ninguéns a levar o alguém até a sala do Dr. Vallverde. Hoje, dois ninguéns levaram um colega a sala do psiquiatra.
De dentro do asilo que não passava de um manicômio que na verdade era um laboratório científico se ouvia muitos gritos desesperados. Aliás, se ouviria não fosse o fato do lugar se localizar fora da cidade, alguns quilômetros mata adentro. Já havia quase três horas e o homenzinho não acordava. Dr. Manoel já estava impaciente e volta e meia cutucava o infeliz sem sucesso. Olhou na ficha do paciente e leu o seu nome numa expressão de cansaço:
- Primogênito Cervantes de Oliveira Segundo... que espécie de nome é esse? - resmungou bem baixinho.
Observou aquele indivíduo inerte por algum tempo constatando indubitavelmente que ele babava tanto quanto um cavalo com sede. Mais uma cutucada e o rapaz acordou tonteando. Olhou profundamente para lugar nenhum e se ateu no esforço de focar o que quer que fosse. Segurou a cabeça esperando que o mundo parasse. Ergueu-se e ficou sentado no divã. Sentiu o chão molhado e por alguns segundos conjecturou se havia chovido. Olhou pro pé e esperou sua visão voltar ao normal. Enquanto aguardava resmungou algumas palavras de forma initeligível.
- É o quê!? - A interjeição quase não saiu da boca do psiquiatra.
- Quaueiou... - Segundo decidiu ficar calado.
Dr. Vallverde decidiu que o homem estava atordoado e decidiu deixa-lo se recuperando enquanto tomava um café.
Por algum tempo o indivíduo ficou parado no divã sem se mexer. Notou que seus sentidos voltavam ao normal. Gradualmente sua visão retornou e ele viu que estava em uma sala bem limpa e iluminada. Tudo era branco com formas básicas. A mesa era de vidro fosco, tinha um formato de semicírculo suspenso no ar por um trapézio conectado ao tampo pela borda reta, de forma que o ângulo formado pelo trapézio e o tampo faziam a estrutura se equilibrar.
Primogênito Cervantes de Oliveira Segundo limpou a boca com a roupa notando que usava uma camisola de hospital azul e nada mais. Fez uma panorâmica na sala e viu uma estrutura circular vazada suspensa por uma fina corda transparente presa no teto. Apenas três coisas não combinavam naquele ambiente. O divã que era vermelho intenso, o chão que era de taco velho e ele, que nem sabia o motivo de estar ali.
De volta a sala, Dr. Vallverde viu que seu paciente havia recuperado as faculdades mentais o que lhe deixou extremamente feliz.
- Então o senhor finalmente acordou!
- ...
O Dr. Vallverde sentou-se na poltrona inteiramente branca e voltou seu olhar à ficha do paciente.
- O senhor por acaso se lembra de seu nome?
- Claro, o meu nome é Segundinho... - respondeu entediado.
- Segundinho!? O senhor sabe por que está aqui?
- Cara, esses últimos dias eu não duvido de mais nada. Pode dizer como eu vim parar aqui que eu acredito.
- Nós não sabemos! Você simplesmente apareceu num dos aposentos dizendo coisas como...
Dr. Vallverde não completou a frase esperando que Segundinho o fizesse.
Segundinho leu o letreiro que dizia "Dr. Marcelo Vallverde" em cima da mesa de vidro.
- Sabe, eu tenho que ir embora. Eu trabalho e tenho que entregar alguns trabalhos semana que vem. Será que o senhor poderia me dar minhas roupas e documentos?
- Que documentos? O senhor "chegou" aqui com as roupas sujas de vômito e uma garrafa de cerveja.
Segundinho sentiu umas pontadas leves na cabeça e as memórias foram surgindo a medida que o psiquiatra falava.
- Então, como o senhor sabe meu nome? Eu falei?
- Não, nós usamos o Google. - Dr. Vallverde não se aguentava de euforia e deixou escapar um leve sorriso.
- ah tá.
- Agora eu gostaria de lhe fazer algumas perguntas e logo após o senhor pode ir embora. - Disse sufocando a felicidade.
- O senhor pode providenciar minhas roupas?
- ah sim, claro. - Digitou no telefone o número 02761 e logo em seguida ouviu-se uma voz artificial dizer mecânicamente:
- Bom dia Dr. Vallverde, em que posso ajuda-lo?
- Me traz a roupa do paciente 0321.
- Com todo o prazer. - Click. tu-tu-tu-tu...
- Pois, vamos começar. Primeiroeu gostaria de saber quando foi que você começou a ter esses lapsos de memória?
Segundinho pensou no que responder. Se contasse a verdade o psiquiatra certamente lhe internaria. Mas se o internasse ele facilmente escaparia. No entanto, ele não podia confiar nas armas que tinha, afinal se estava ali era por culpa disso. Mas ele também sabia que mentir não era uma boa coisa a fazer, principalmente ele. Resolveu contar a verdade de vez.
- Beeem... Eu não sei muito beeeeem como tudo começou ssssssse... poss' te chamá de Marcelo mesmo?
- Pode sim.
- Bem Marcelo...foram os Vogons!